Moradora da Ilha do Combu e fundadora da Filha do Combu, Izete dos Santos Costa ocupa a 47ª posição entre as mulheres mais influentes do agronegócio brasileiro.
Protagonismo ribeirinho!
A moradora da Ilha do Combu Izete dos Santos Costa, mais conhecida como Dona Nena, entrou para a lista dass 100 Mulheres Poderosas do Agro, da Forbes Brasil. A segunda edição do ranking foi divulgada em 15 de outubro de 2026, Dia Internacional da Mulher Rural, e reúne produtoras, pesquisadoras, executivas e lideranças de todo o país. Dona Nena aparece na 47ª posição e, segundo o portal Notícia Marajó, é a única representante do Pará entre as listadas. Quem conhece a ilha sabe que o reconhecimento não surgiu do nada. Por trás da fábrica de chocolate que virou parada obrigatória no Combu há uma história de trabalho ribeirinho, de decisões tomadas por quem vive no território e de um jeito próprio de fazer o cacau valer mais.

Dona Nena, que é moradora da Ilha do Combu, começou no extrativismo, como muitas famílias ribeirinhas, e enfrentou as dificuldades da entressafra, quando a renda diminui. Em vez de buscar saída longe da ilha, apostou no que ela tem a oferecer. Hoje é referência em chocolate artesanal amazônico, dona da marca Filha do Combu e anfitriã de visitantes do Brasil e do mundo, de turistas curiosos a presidentes. Em 2024, a Casa do Chocolate recebeu o presidente francês Emmanuel Macron e o presidente Lula, em uma visita que ganhou repercussão internacional, como lembra a Forbes.
Da feira ambiental à Casa do Chocolate

A história começa em 2002, numa feira ambiental em Belém. Dona Nena levava biojoias, mas a procura era pequena, então passou a levar também produtos do quintal. Lá, lembrou das barras de cacau puro que o sogro, Sebastião Quaresma, fazia em casa. Embrulhou as suas em folhas de cacau, apostou e deu certo, conforme ela contou ao Diário do Pará em 2022.
Em 2008, vieram os bombons e o chamado brigadeiro da floresta. Depois veio o curso de bombons regionais, a produção na cozinha da casa e a parceria com Prazeres Quaresma dos Santos, do restaurante Saldosa Maloca, que passou a vender os produtos e levou o chef Thiago Castanho para avaliar o chocolate. O chef apenas atestou a qualidade e passou a divulgar a marca. A fama cresceu e as visitas também.
“A gente chegou no limite de não saber se produzia ou atendia”, contou Dona Nena em 2019, durante a minha pesquisa de campo. A resposta foi se organizar: com apoio técnico da Emater e financiamento do Banco da Amazônia, ela ampliou o trapiche e, em 2017, abriu a Casa do Chocolate, formalizada como MEI e depois como pequena empresa familiar, segundo o Diário do Pará.


A transformação continuou. Em 2026, a Forbes Agro informou uma produção de 400 a 500 quilos de chocolate por mês, com empregos formais na comunidade. Dona Nena deixou de vender amêndoas a atravessadores e passou a fabricar o próprio chocolate, num caminho que a reportagem resume como agregar valor em vez de vender matéria-prima. Prazeres, a antiga parceira, hoje é sócia da empresa.
O que sai da cozinha da Filha do Combu
O cacau vem da floresta de várzea, plantado entre árvores nativas, e todo o processo acontece na ilha: colheita, fermentação, secagem, torra e fabricação. Entre os produtos citados pela Forbes Agro estão: barras de chocolate, incluindo versões com alto teor de cacau e 100% cacau, e o brigadeiro de nibs, feito com pedaços de amêndoa de cacau torrados, sem açúcar nem conservantes, um dos doces mais pedidos. Há também o mel de cacau, suco natural da polpa branca que envolve as sementes, antes descartado e hoje parte do portfólio. Os bombons acompanham a marca desde 2008, segundo o Diário do Pará. Os produtos são vendidos na Casa do Chocolate, em restaurantes parceiros, em uma loja em Belém e pela loja virtual, que envia para todo o Brasil.



Quem decide o que fazer com o território
A trajetória de Dona Nena ajuda a entender o que significa protagonismo. O pensamento decolonial, que orienta a minha pesquisa sobre o turismo no Combu, chama atenção para uma lógica antiga: a região fornece matéria-prima barata, enquanto o valor, a marca e as decisões ficam em outras mãos. Também questiona o olhar que não reconhece o saber de quem vive na floresta como conhecimento de verdade.
A história da Casa do Chocolate caminha no sentido contrário. Foi uma moradora da ilha quem escolheu beneficiar o cacau em vez de entregar a amêndoa a intermediários, criou a marca, definiu o ritmo de produção e buscou, por conta própria, assistência técnica e financiamento. Quando o chef Thiago Castanho foi avaliar o chocolate, a conclusão, registrada na minha pesquisa de campo, foi que o produto ribeirinho já tinha a qualidade necessária. O conhecimento estava ali.
Hoje, segundo a Forbes Agro, cerca de 30 produtores locais fornecem cacau à Filha do Combu, e Dona Nena mantém pagamentos acima da média mesmo quando o preço internacional cai, para que ninguém abandone a cultura. Ela também diz que não quer chegar a 10 mil pés de cacau, porque isso exigiria desmatar. A meta é melhorar o que já existe na floresta. Crescer, nesse caso, não significa abrir mão do modo de vida ribeirinho.
Até a visita segue essa lógica: a experiência parte da história de Dona Nena e do saber de quem planta e fabrica. Quem ensina é quem sabe.

O que a ilha ganha
O destaque de Dona Nena coloca o Combu em uma lista nacional de peso e reforça uma ideia que a ilha defende há tempo: floresta em pé gera renda. Em 2024, o Diário do Pará contava 14 famílias dependendo diretamente da cadeia do chocolate, entre funcionários e produtores. Em 2026, a Forbes Agro fala em cerca de 30 fornecedores locais, menos dependência de atravessadores e renda mais previsível.
Houve ganho ambiental também. A produção acontece na várzea, sem desmatamento, e a Forbes lembra que o cacau ajuda a manter na floresta quem poderia migrar para culturas de retorno mais rápido, como o açaí. Soma-se a isso a rede de mulheres que o perfil da Forbes cita no Combu, como a Associação das Mulheres Extrativistas do Combu, presidida por Daniele Raiol, os ateliês de biojoias e as colhedoras de açaí. A conquista de uma não é só dela: ela abre caminho e dá visibilidade a quem vive e trabalha na ilha.
O outro lado: desafios que pedem atenção
O reconhecimento não apaga as dificuldades. A Forbes Agro aponta energia ininstável, falta de água tratada, logística complicada, pouca assistência técnica, insegurança fundiária e dificuldade de acesso a crédito. O clima também pesa: em um ano, a colheita de Prazeres Quaresma, sócia de Dona Nena, caiu de cerca de 600 quilos para menos de 100 na mesma etapa.
Há ainda os efeitos do próprio sucesso turístico. Na minha pesquisa de campo, em 2019, a Casa do Chocolate recebia cerca de 600 visitantes em um único dia de fim de semana, segundo Viviane, filha de Dona Nena. Naquele trabalho, também registrei casos de barcos que atracavam sem aviso no trapiche da família, que fica no mesmo terreno da casa, inclusive em dia de folga. Diante disso, Nena decidiu ampliar os dias de atendimento para poder atender a demanda. Vale destacar: o Combu é lugar de trabalho e de moradia, não um cenário a ser explorado como bem entender.
A ilha é uma Área de Proteção Ambiental, e eu mesma, aqui no site Ilha do Combu, aponto fragilidades na gestão, como a ausência de um Plano de Manejo, o que preocupa diante do crescimento desordenado do turismo. Por isso, algumas atitudes fazem diferença: não atracar em trapiches particulares, evitar alta velocidade com lanchas e jet skis, que contribui para a erosão das margens, não jogar lixo no rio ou na mata e respeitar moradores e trabalhadores. Como costumo dizer por aqui: “sinta-se em casa, mas lembre-se que não está”.
Prestigiar a Casa do Chocolate é uma forma de apoiar quem faz a ilha acontecer, desde que a visita seja feita com cuidado, agendamento e respeito.
Horários e contato
O espaço funciona todos os dias, das 9h às 17h, tendo maior movimento aos finais de semana e feriados. As visitas guiadas devem ser agendadas e os horários podem mudar, para mais informações acesse o Instagram @filhadocombu (https://www.instagram.com/filhadocombu/) ou o site https://vidacabocaturismo.com.br/. A loja da marca em Belém, na Rua Aristides Lobo, 362 (https://share.google/k8cyHTm1hWPGw8URD), atende de segunda a sexta, das 9h às 17h.













