Passada a eleição, uma antropóloga que pesquisa a ilha há mais de uma década pergunta: as pessoas que vivem nos territórios têm voz nas decisões que os afetam?
No domingo, 25 de outubro de 2026, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, anunciou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro (PL) teve 59.826.041 votos (48,21%). A diferença ficou em pouco mais de 4,4 milhões de votos, e a abstenção foi de cerca de 19%, segundo o TSE.
No Pará, o governador eleito já no primeiro turno, em 4 de outubro, foi Dr. Daniel (Podemos), ex-prefeito de Ananindeua, com pouco mais de 51% dos votos válidos, à frente de Hana Ghassan (MDB). Ele governará o estado de 2027 a 2030, e os senadores eleitos foram Helder Barbalho (MDB) e Chicão (União), de acordo com o TRE-PA e o Congresso em Foco.
Este texto não trata de vencedores e perdedores. A pergunta que me interessa, como antropóloga que pesquisa a Ilha do Combu desde 2010, é outra: passada a eleição, quem decide o futuro de territórios como o nosso, e com a participação de quem?
Em poucas palavras, o que é o debate decolonial?

Na minha tese, Por um turismo decolonial, de 2023, apoio-me no pensador Walter Mignolo, para quem modernidade, colonialidade e decolonialidade formam uma tríade de relações de poder. Em linguagem simples, colonialidade é o padrão que sobrevive ao fim do colonialismo: quem decide, quem é ouvido, qual saber vale e quem fica com o lucro continuam seguindo uma lógica herdada daquele tempo.
Um exemplo é a própria ideia de desenvolvimento, que os estudos situam no discurso do presidente americano Harry Truman, em 1949, e que trata o progresso como um caminho único, medido em economia, tecnologia e urbanização. A pergunta decolonial não rejeita crescimento nem renda. Ela questiona quem define o que é progresso, para quem e com que custo. Vale dizer: decolonial não é rótulo de partido nem de candidato. É uma lente para olhar qualquer política pública, de qualquer lado, e perguntar se as pessoas do território estão à mesa ou apenas na foto.
O resultado dá ao programa vencedor a chance de sair do papel, mas programa é promessa, não entrega. E, pelo olhar decolonial, importa menos quem prometeu mais e mais como se decide: políticas desenhadas para o ribeirinho ou construídas com ele? A diferença parece pequena no papel e é enorme na vida de quem mora na margem do rio.
O que a Ilha do Combu mostra
Minha dissertação, Viver às margens do rio, mostra moradores que se reconhecem como combuenses e ribeirinhos, com forte sentimento de pertencimento, e que seguem gostando de viver ali mesmo diante das dificuldades em saúde, educação, transporte e infraestrutura. A tese acompanha o que veio depois: o turismo cresceu de forma acelerada a partir de 2015, trouxe renda, empregos e reconhecimento, mas também barulho, erosão, insegurança e conflitos.
Minha conclusão foi que a raiz do problema está no padrão colonial de poder que o turismo herdou. O turismo na ilha não foi planejado, a APA criada em 1997 segue sem Plano de Manejo e seu Conselho Gestor atua pouco. Melhorias importantes, como o terminal hidroviário em Belém, vieram de demandas externas. E, quando o poder público cobra deveres dos moradores sem garantir direitos, pode acabar reforçando a mesma lógica. Há uma ligação direta com o que se decidiu nas urnas. A APA é gerida pelo Ideflor-Bio, órgão do governo estadual, então o resultado de 4 de outubro importa para a ilha.
Soberania popular e o voto de quem vive longe das urnas

A disputa deste ano teve também um debate sobre soberania. Em 22 de setembro, ativistas projetaram em Nova York, às vésperas do discurso de Lula na ONU, uma imagem feita por inteligência artificial em que Flávio Bolsonaro entrega a faixa presidencial a Donald Trump, segundo a ISTOÉ Dinheiro. Em 19 de outubro, cerca de 300 pessoas protestaram diante da sede da Meta, em São Paulo, no ato “Meta, não se meta na nossa eleição”, com gritos contra Trump e Zuckerberg, conforme o Poder360. As entidades alegam que perfis ligados a Lula foram prejudicados. A Meta nega interferência, mas admitiu falhas técnicas, e o TSE cobrou explicações.
Há um relatório da Abin que aponta risco de influência estrangeira e a afirmação de Lula de que pediu a Trump que não se envolvesse. É preocupação, não prova. Ainda assim, os atos interessam ao debate decolonial porque tratam de quem decide o destino de um país. A colonialidade do poder aparece quando decisões dependem de governos e empresas de fora. Soberania, porém, é palavra disputada: o programa de Flávio também a usa para defender a proteção da Amazônia. A pergunta decolonial é soberania de quem: do Estado, do mercado ou das pessoas que vivem no território?

A soberania popular também se mede na distância até a urna. No Vale do Javari (AM), eleitores indígenas enfrentam viagens de rio de 321 a 895 quilômetros, de três a cinco dias ou mais, segundo o ND Mais. A Univaja se mobilizou para garantir combustível, água e comida, e o TSE, que a princípio negou o pedido, liberou barcos e veículos federais em 24 de outubro. A APIB resumiu o problema: “O Estado leva a urna até a floresta, mas não leva o eleitor até a urna.” No Pará, a Justiça Federal, em ação do MPF, mandou a União garantir transporte, alimentação e intérpretes a indígenas e, em 23 de outubro, estendeu a medida a quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e famílias assentadas. Em Manaus, moradores da comunidade Jatuarana chegaram de barco às urnas e pediram escolas, serviços públicos e fiscalização da floresta, relata o Canal MyNews. Em uma ilha onde só se circula pelo rio, como o Combu, essa imagem é bem familiar.
O que isso mostra? Que o direito ao voto, universal no papel, depende de condições concretas, e que ribeirinhos e povos originários não ficaram esperando: organizaram-se, cobraram e foram às urnas. É a agência de que falo na tese, a de sujeitos que não aceitam ser fígurantes em suas próprias histórias. Mas o fato de ter sido preciso recorrer à Justiça, às vésperas do segundo turno, mostra a lacuna. No Vale do Javari, 27,6% dos eleitores aptos não votaram no primeiro turno, contra 21,08% de abstenção na média nacional, embora o TRE-AM tenha observado que o índice é parecido com o da área urbana de Atalaia do Norte.





Na tese, lembro que o problema é sistêmico e que não dá para esperar o mundo mudar para só então agir. Isso vale para qualquer governo. A mudança passa pelo voto, mas passa também pelo cotidiano: como o poder público trata os moradores, como as empresas e os visitantes se comportam, e quanta autonomia as comunidades têm para decidir.
Países da América Latina e Caribe comemoram vitória de Lula

Após a confirmação da vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, diversos líderes da América Latina e do Caribe se manifestaram destacando o resultado como um exemplo democrático e um marco para a região. Os principais posicionamentos que associaram o triunfo brasileiro a um exemplo ou modelo regional incluem:
- Uruguai: A vice-presidente do país, Carolina Cosse, celebrou explicitamente a vitória de Lula nas redes sociais afirmando: “¡Viva la Democracia! Grande exemplo o do Brasil. Enorme triunfo de @LulaOficial”.
- México: A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, manifestou-se prontamente declarando que “venceu o povo do Brasil” e, posteriormente, classificou o resultado como “um sopro de esperança para a América Latina” diante do avanço recente de governos conservadores na região.
- Colômbia: O ex-presidente colombiano Gustavo Petro ressaltou o peso político da votação, afirmando que o “triunfo de Lula deve marcar o começo do fim do fascismo nos Andes e no Caribe”.
- Cuba e Bolívia: Os presidentes Miguel Díaz-Canel (Cuba) e o ex-presidente Evo Morales (Bolívia) enfatizaram que a vitória serve como uma renovação de esperança para a justiça social e a soberania dos povos, defendendo que o exemplo brasileiro impulsione a integração da “Pátria Grande” latino-americana.
Segundo a BBC, o contexto da eleição foi amplamente apontado por analistas internacionais como um ponto de inflexão regional. A reeleição de Lula quebrou uma sequência de vitórias de candidatos de direita na América do Sul e serviu como um contrapeso político ao cenário conservador fortalecido nas Américas.
Para onde olhar a partir de agora
A tese aponta caminhos que servem de régua para os próximos anos. A prioridade, no caso da ilha, é elaborar o Plano de Manejo da APA, com regras para o turismo, e criar uma base administrativa no Combu, ligada ao Conselho Gestor e composta por moradores. Defendo ainda investir em educação turística e não só em marketing, capacitar também os servidores públicos e fortalecer a governança local, tendo o Bem Viver da população como ponto de partida.
Quem vive e visita a ilha pode acompanhar se esses temas entram na pauta do novo governo estadual e do governo federal, e cobrar com respeito e informação. A decolonialidade, no fim, começa por uma pergunta simples: quem sabe mais sobre o lugar do que quem mora nele?













